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Mostrando postagens de abril, 2026

Afinal, como um juiz consegue julgar centenas de processos sem sucumbir ao colapso cognitivo?

A pergunta costuma ser formulada em tom de suspeita, como se a única resposta possível fosse a superficialidade. Imagina-se o magistrado como alguém que “não lê direito”, que despacha mecanicamente ou que decide por impulso burocrático. Há, porém, um equívoco elementar nessa percepção: ela parte da premissa de que julgar equivale a ler cada linha de cada página de forma linear, lenta e integral. A mente humana simplesmente não funciona assim, sobretudo em atividades de alta repetição técnica. A história da chamada “leitura dinâmica” ajuda a compreender o fenômeno. No fim da década de 1940, Evelyn Wood ficou impressionada ao ver seu orientador acadêmico folhear rapidamente uma monografia e, logo depois, apresentar observações precisas sobre o conteúdo. A cena lhe pareceu quase sobrenatural. Daí surgiria o famoso método Reading Dynamics, vendido durante décadas como prova de que certas pessoas seriam capazes de ler milhares de palavras por minuto. A neurociência contemporânea desmontou g...

Entre a Retórica e a Norma: responsabilidade semântica e legitimidade na magistratura

A controvérsia suscitada pela declaração da desembargadora Eva do Amaral Coelho não se esgota no plano da infelicidade retórica. O episódio revela algo mais profundo, que atravessa o campo jurídico e alcança a própria autocompreensão institucional da magistratura: a erosão do rigor semântico na utilização de categorias jurídicas densas e historicamente carregadas. Ao qualificar a restrição de vantagens remuneratórias como “regime de escravidão”, não se está apenas diante de um exagero expressivo, mas de uma operação discursiva que desloca o sentido normativo de um conceito estruturante do sistema penal e dos direitos humanos. Não se trata de preciosismo linguístico. A escravidão contemporânea, tal como definida no Artigo 149 do Código Penal, constitui uma realidade empírica persistente, marcada por elementos objetivos que delimitam com precisão seu alcance: trabalho forçado, servidão por dívida, jornada exaustiva e condições degradantes. A densidade desse tipo penal não é meramente téc...

CPIs, dados digitais e a nova fronteira da intimidade: entre a investigação parlamentar e a contenção jurisdicional

O avanço tecnológico desloca o eixo do debate constitucional: não se trata mais de ampliar ou restringir poderes, mas de redefinir os critérios de seu exercício à luz da densidade informacional contemporânea A tensão entre investigação parlamentar e proteção da intimidade deixou de ser um episódio circunstancial para se afirmar como um problema estrutural do constitucionalismo contemporâneo. A razão é evidente: a transformação digital alterou, de forma qualitativa, o alcance das medidas de obtenção de prova, convertendo instrumentos tradicionalmente delimitados em mecanismos potencialmente totalizantes de acesso à vida privada. O Congresso Nacional, ao exercer suas funções fiscalizatórias por meio das comissões parlamentares de inquérito, sempre atuou com poderes instrutórios robustos, em larga medida equiparáveis aos da autoridade judicial. Esse desenho institucional, no entanto, foi concebido em um ambiente de relativa escassez informacional. A quebra de sigilo, ainda que invasiva, i...

Minha carne pública - análise

O texto “Minha carne pública”, de Giovana Madalosso, publicado hoje na Folha, é um testemunho visceral sobre como o corpo feminino é constantemente moldado, julgado e oferecido ao olhar alheio. Ao lê-lo, como homem, não consigo escapar da reflexão sobre o quanto nós, homens, participamos - direta ou indiretamente - dessa engrenagem que transforma a carne em espetáculo e a vida em sacrifício. Não é apenas uma narrativa individual; é um espelho que nos obriga a enxergar a cultura que naturalizamos e perpetuamos. O que mais me impacta é perceber como cada detalhe do corpo narrado foi alvo de crítica: pés, mãos, nariz, pele, cabelo, seios, barriga. Nada escapa. É como se a existência feminina fosse uma arena pública, onde todos se sentem autorizados a opinar, corrigir, sugerir cirurgias, impor padrões. E eu me pergunto: quantas vezes, mesmo sem intenção, já reproduzi esse olhar avaliador? Quantas vezes já silenciei diante de uma piada ou comentário cruel, como o colega que comparou a menin...

Representação em Desvio: quando o poder se afasta da base

Experiências históricas envolvendo os sindicatos de servidores públicos e os governos expõem, com nitidez incômoda, não apenas a força, mas também os riscos que acompanham o exercício do poder, seja no plano governamental, seja no âmbito sindical. A ocupação de cargos de direção, quando dissociada de compromisso ético, transparência e responsabilidade pública, deixa de cumprir sua função originária. Em lugar de servir ao coletivo, passa a operar como instrumento de autopreservação, orientado por interesses circunstanciais e, por vezes, por uma lógica de grupo pouco permeável à crítica. O que mais inquieta não é apenas a existência dessas práticas, mas a sofisticação dos mecanismos utilizados para legitimá-las. Narrativas são cuidadosamente construídas, com aparência de coerência e compromisso institucional, mas sustentam escolhas que, no plano concreto, fragilizam a base que afirmam representar. Dirigentes sindicais, em determinados contextos, blindam-se de questionamentos e tratam a d...

O falso dilema da educação: entre formar para o mundo ou compreendê-lo

O falso dilema da educação: entre formar para o mundo ou compreendê-lo RESUMO  Li em um fórum a seguinte provocação: "Como diz o professor Clóvis de Barros filho: 'Bicho, se eu fosse tu, arranjava logo um estágio porque aqui, você não vai aprender porra nenhuma'! Eu tenho um plano para as escolas encherem de alunos que é simples: Faz uma fogueira, junta cadernos, livros, canetas e lápis a partir do ensino fundamental e queima tudo. Fala pra galera: Rapaziada, podem trazer celular, kindle e note. Inserir programação, economia, ética, preservação do meio ambiente e educação sexual e retirar da grade de aulas disciplinas que não se aplicam à vida prática. Há um neurocientista pós doutorado em Harvard que diz: Podemos estudar 100 anos e vamos morrer sem saber definir o que é um único elétron. E mais: A parte clara do universo corresponde a 4% do que a ciência descobriu e 96% é massa escura e ninguém sabe de nada. Estudando física quântica, neurociências até os 100 anos, morrer...

Do Protesto ao Contra-Ataque: a reconfiguração ideológica da juventude masculina

Do Protesto ao Contra-Ataque: a reconfiguração ideológica da juventude masculina A ideia de que cada geração seria inevitavelmente mais progressista do que a anterior sempre teve algo de confortável: ela sugeria um sentido quase automático de avanço moral, como se o tempo resolvesse, por si só, tensões sociais e conflitos de valores. Esse pressuposto, no entanto, começa a mostrar sinais de esgotamento. Em diversos contextos - da Espanha aos Estados Unidos, passando por países europeus e pela Coreia do Sul - observa-se um deslocamento relevante: muitos homens jovens têm adotado posições mais conservadoras do que seus próprios pais. Não se trata de um desvio episódico, mas de um rearranjo que revela mudanças mais profundas na forma como a juventude se relaciona com o poder, com a identidade e com o próprio sentido de rebeldia. A juventude nunca foi, em essência, progressista ou conservadora. Ela é, antes de tudo, reativa ao ambiente simbólico em que está inserida. Nos anos 1960 e 1970, i...