Afinal, como um juiz consegue julgar centenas de processos sem sucumbir ao colapso cognitivo?
A pergunta costuma ser formulada em tom de suspeita, como se a única resposta possível fosse a superficialidade. Imagina-se o magistrado como alguém que “não lê direito”, que despacha mecanicamente ou que decide por impulso burocrático. Há, porém, um equívoco elementar nessa percepção: ela parte da premissa de que julgar equivale a ler cada linha de cada página de forma linear, lenta e integral. A mente humana simplesmente não funciona assim, sobretudo em atividades de alta repetição técnica. A história da chamada “leitura dinâmica” ajuda a compreender o fenômeno. No fim da década de 1940, Evelyn Wood ficou impressionada ao ver seu orientador acadêmico folhear rapidamente uma monografia e, logo depois, apresentar observações precisas sobre o conteúdo. A cena lhe pareceu quase sobrenatural. Daí surgiria o famoso método Reading Dynamics, vendido durante décadas como prova de que certas pessoas seriam capazes de ler milhares de palavras por minuto. A neurociência contemporânea desmontou g...