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O SUPREMO VISTO DE FORA

  O SUPREMO VISTO DE FORA Quando a crise deixa de pertencer aos ministros e passa a pertencer à instituição Há crises que se tornam mais compreensíveis quando vistas de longe. A proximidade oferece detalhes, personagens, bastidores e documentos. A distância, às vezes, permite enxergar a paisagem. É o que começa a acontecer com a crise que envolve o Supremo Tribunal Federal. A imprensa brasileira acompanha cada movimento quase em tempo real. Mensagens retiradas do telefone de Daniel Vorcaro, relatórios da Polícia Federal, decisões de André Mendonça, reações de Alexandre de Moraes, intervenções de Flávio Dino, despachos de Edson Fachin, manifestações da Procuradoria-Geral da República. Há uma profusão de informações, versões concorrentes e documentos cuja importância muda a cada novo episódio. Os títulos refletem essa temperatura. O UOL fala em “guerrilha interna” e em um STF em “franca decomposição”. A Folha já empregou a expressão “ponto de não retorno” e publicou editorial dur...

Da República dos Coronéis à República dos Algoritmos

  Da República dos Coronéis à República dos Algoritmos A democracia não se resume à existência de eleições periódicas, à liberdade de imprensa ou à separação formal entre Executivo, Legislativo e Judiciário. Esses elementos constituem requisitos necessários, mas insuficientes. A tradição que vai de Aristóteles a Tocqueville sempre compreendeu que a essência do regime democrático reside na efetiva distribuição do poder político entre os cidadãos, na possibilidade real de alternância das elites governantes e na existência de mecanismos capazes de impedir que qualquer grupo transforme o Estado em patrimônio próprio. Sob essa perspectiva, a democracia é menos uma forma jurídica de governo do que uma permanente contenção da tendência natural de concentração do poder. É nesse ponto que parte dos intérpretes do Brasil identifica uma peculiaridade nacional.  A Constituição de 1988 instituiu um dos sistemas democráticos mais completos, cercado por direitos fundamentais, eleições livres...

A Copa do Mundo de 2026: quando o futebol divide espaço com a política, a economia e o meio ambiente

A Copa do Mundo de 2026: quando o futebol divide espaço com a política, a economia e o meio ambiente Durante décadas, a Copa do Mundo foi apresentada como uma celebração universal capaz de suspender, ainda que temporariamente, conflitos políticos, rivalidades históricas e diferenças culturais. O futebol aparecia como uma linguagem comum, compreendida em qualquer continente, apta a unir povos em torno de uma competição esportiva. A edição de 2026, entretanto, parece desafiar essa narrativa de maneira particularmente intensa. Realizada simultaneamente nos Estados Unidos, no México e no Canadá, a maior Copa da história, com 48 seleções participantes, surge cercada por controvérsias que ultrapassam os limites do gramado e revelam tensões profundas do mundo contemporâneo. A dimensão econômica do torneio constitui um dos primeiros elementos de inquietação. A Fifa adotou um sistema de preços dinâmicos para a comercialização dos ingressos, mecanismo que ajusta valores de acordo com a demanda d...

O Controle da Palavra e a Fragilidade das Democracias Contemporâneas

Quando uma única instituição se auto reserva o monopólio de decidir sobre os limites do debate público, seria sinal de uma sociedade inclinada a um possível estado de entropia? Esta questão sugere sofisticação, porque desloca o debate da mera legalidade formal para a análise estrutural do funcionamento do sistema político. A ideia de “entropia institucional” permite observar a democracia não apenas como um conjunto de normas, mas como um organismo dependente de circulação contínua de legitimidade, dissenso, confiança e capacidade adaptativa. Há um ponto particularmente relevante nesta reflexão: as democracias não sobrevivem apenas pela força coercitiva das instituições, mas pela crença social compartilhada de que o conflito político pode existir sem destruição do próprio sistema. Quando o espaço discursivo passa a ser excessivamente administrado por um núcleo restrito de intérpretes institucionais, surge uma tensão delicada entre preservação da ordem e compressão da pluralidade. A ques...

Vieses cognitivos e a prova testemunhal

Os vieses cognitivos representam um dos elementos mais relevantes para compreender o comportamento humano contemporâneo. Eles revelam que a mente não opera como mecanismo puramente racional de análise objetiva da realidade. Em grande medida, pensamos por atalhos mentais, simplificações intuitivas e associações emocionais que ajudam a lidar com a complexidade do mundo, mas que também produzem distorções sistemáticas de julgamento. A formulação moderna do tema foi amplamente desenvolvida por Daniel Kahneman e Amos Tversky. Eles demonstraram que seres humanos frequentemente tomam decisões afastadas dos modelos clássicos de racionalidade econômica e lógica formal. Nosso pensamento cotidiano é permeado por padrões previsíveis de erro. O viés de confirmação talvez seja um dos exemplos mais visíveis. As pessoas tendem a buscar informações que reforcem crenças prévias e a rejeitar dados que as contradigam. Isso afeta debates políticos, convicções morais, religião, ciência e relações pessoais. ...

Ética, Estética e Livre Arbítrio

Você acredita que é realmente livre? Pense por si, em vez de apenas aderir a ideias com as quais você acredita se identificar! Dá mais trabalho, exige leitura e reflexão, mas vale a pena. A relação entre ética e estética nas interações sociais e políticas constitui um dos temas mais profundos da filosofia política, da teoria crítica e da sociologia da cultura. A aparência, a forma, os símbolos, os rituais e a linguagem visual frequentemente condicionam a percepção do que é considerado legítimo, aceitável, justo ou desejável dentro da vida coletiva. A estética nunca opera apenas no plano do “belo”. Ela organiza sensibilidades, produz pertencimentos, cria hierarquias simbólicas e influencia a maneira pela qual as pessoas interpretam valores morais e estruturas de poder. Em política, isso é particularmente evidente. Regimes, governos, movimentos sociais e lideranças sempre recorreram a elementos estéticos para consolidar autoridade, mobilizar afetos e produzir adesão coletiva. Pense-se, p...

Judicialização em Massa no Brasil: O Papel dos Grandes Litigantes e a Crítica à Tese da Litigância Predatória

  Introdução O debate sobre a chamada litigância predatória ganhou centralidade no cenário jurídico brasileiro nos últimos anos, sobretudo em razão do crescimento expressivo das demandas repetitivas e da sobrecarga estrutural do Poder Judiciário. A expressão passou a ser utilizada para designar o ajuizamento massivo de ações padronizadas, muitas vezes atribuídas a escritórios de advocacia especializados na multiplicação de demandas semelhantes. Sob essa perspectiva, a elevada litigiosidade seria consequência de uma suposta “indústria de ações”, marcada pela instrumentalização do processo judicial como mecanismo de obtenção de vantagens econômicas rápidas. Essa narrativa, embora difundida em setores da doutrina e da jurisprudência, mostra-se insuficiente para explicar a complexidade da judicialização em massa no Brasil. A leitura que concentra o problema exclusivamente no polo ativo da relação processual ignora um elemento estrutural decisivo: a atuação reiterada de grandes empresas...