A Tentação do Bode Expiatório Inverso
Resposta ao artigo intitulado ALEXANDRE DE MORAES, O APOLÔNIO DE TIANA DO ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO.
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A TENTAÇÃO DO BODE EXPIATÓRIO INVERSO: GIRARD CONTRA A MITOLOGIA DA PERSEGUIÇÃO
I — GIRARD, JUSTIÇA E O ERRO FUNDAMENTAL DA ANALOGIA SACRIFICIAL
Há textos que seduzem menos pela consistência de seus argumentos do que pela força simbólica com que organizam imagens morais. A equiparação entre Alexandre de Moraes e Apolônio de Tiana, de um lado, e Jair Bolsonaro e o mendigo sacrificado de Éfeso, de outro, pertence a esse gênero. Seu impacto decorre da atmosfera espiritual que constrói: um país enfeitiçado, um juiz-sacerdote, uma vítima inocente sob apedrejamento ritual. No entanto, precisamente por seu excesso de simbolização, o argumento incorre em um erro conceitual decisivo: confunde o mecanismo do bode expiatório, tal como descrito por René Girard, com qualquer forma de responsabilização institucional exercida em contextos de crise.
Girard jamais sustentou que toda punição, julgamento ou coerção estatal equivalha a um sacrifício ritual. Ao contrário, uma de suas distinções centrais é aquela entre a violência mimética difusa — espontânea, contagiosa, unanimista e cega — e a justiça institucional, criada historicamente como tentativa de conter essa violência. O linchamento não conhece procedimento, proporcionalidade ou defesa; ele se alimenta da fusão emocional da multidão e da eliminação simbólica de um inimigo absoluto. A justiça, mesmo imperfeita, opera na direção oposta: fragmenta a violência, distribui responsabilidades, submete acusações a regras e produz dissenso.
É nesse ponto que a analogia com Apolônio de Tiana fracassa. Em Éfeso, a vítima não é acusada de atos concretos; ela não possui história, responsabilidade política ou capacidade de ação relevante. O mendigo é escolhido precisamente por sua insignificância e por sua adequação simbólica ao pânico coletivo. Ele “encarna” o mal sem jamais tê-lo produzido. A multidão não o pune; ela o utiliza. Já no caso brasileiro, Jair Bolsonaro não é um corpo indiferenciado sobre o qual se projeta um mal metafísico, mas um agente político central, com trajetória pública, poder institucional prévio e responsabilidade direta por discursos e práticas que tensionaram deliberadamente o sistema democrático.
A insistência em tratar sua responsabilização como sacrifício ritual exige, portanto, um apagamento prévio dos fatos. Ataques reiterados às eleições, deslegitimação preventiva do resultado, estímulo à desobediência a decisões judiciais, retórica permanente de inimigo interno — tudo isso precisa ser dissolvido em uma névoa simbólica para que a narrativa do bode expiatório funcione. Girard é explícito: o mecanismo sacrificial depende da invisibilização da culpa real ou possível. Quando os atos são públicos, documentados e discutidos, a lógica do sacrifício perde seu fundamento antropológico.
Além disso, o argumento ignora um dado crucial: não há unanimidade. A perseguição sacrificial clássica só se estabiliza quando a coletividade converge emocionalmente contra a vítima. O cenário brasileiro é o oposto. Há dissenso contínuo, polarização aberta, questionamento constante das decisões judiciais e contestação pública da legitimidade das instituições. O conflito não se resolve; ele se reproduz. Isso não é sinal de um sacrifício bem-sucedido, mas de uma crise política prolongada em que as instituições tentam, com maior ou menor êxito, conter práticas corrosivas.
Reduzir Alexandre de Moraes à figura de um “taumaturgo guerreiro” completa o erro. Ele não atua como mediador simbólico de forças sagradas nem como líder carismático que canaliza a violência da multidão. Atua como magistrado investido de poderes constitucionais — poderes amplos, controversos, passíveis de crítica, mas juridicamente existentes. Confundir coerção legal com violência mítica não ilumina o problema; apenas o dramatiza.
II — O BODE EXPIATÓRIO INVERTIDO E A PERFORMANCE DA PERSEGUIÇÃO
Se a leitura sacrificial clássica não se sustenta, por que ela exerce tanto fascínio? A resposta talvez esteja naquilo que se pode chamar de bode expiatório invertido. Em vez de concentrar todos os males na vítima para absolver a coletividade, a narrativa contemporânea da perseguição concentra toda a inocência na vítima para absolver seu grupo político. O mecanismo é estruturalmente idêntico; apenas o sinal moral se inverte.
Ao transformar Jair Bolsonaro em mártir sacrificial, a narrativa da perseguição cumpre uma função psicológica e política precisa: eximir sua base de qualquer responsabilidade histórica. Nada do que ocorreu decorre de escolhas estratégicas, radicalizações conscientes ou erros de liderança. Tudo passa a ser efeito de uma conspiração demoníaca conduzida por juízes, tribunais ou “o sistema”. Essa operação não rompe com a lógica mimética descrita por Girard; ela a reproduz sob nova roupagem.
Aqui, a perseguição deixa de ser apenas uma interpretação equivocada dos fatos e se torna um instrumento performativo. Não se trata apenas de acreditar que se é vítima; trata-se de agir politicamente como tal. A narrativa da perseguição mobiliza afetos, cria blindagem moral, deslegitima qualquer crítica e transforma toda responsabilização em prova adicional da conspiração. Quanto mais fatos são apresentados, mais eles são reinterpretados como evidência da injustiça do sistema. O círculo se fecha.
A literatura sobre populismo ajuda a esclarecer esse ponto. Autores como Cas Mudde e Cristóbal Rovira Kaltwasser mostram que líderes populistas frequentemente se apresentam como vítimas de perseguição institucional para preservar sua autoridade carismática. A vitimização não é um efeito colateral; é um recurso estratégico. Ela impede a dissociação entre líder e base, dissolve a autocrítica e converte derrotas políticas em triunfos morais.
Nesse sentido, a insistência na doença, no sofrimento físico ou na fragilidade pessoal do acusado funciona como elemento retórico complementar. A compaixão é deslocada do plano humano para o plano político, onde passa a operar como critério de absolvição. Mas isso não é cristianismo, nem em Girard nem em qualquer tradição teológica séria. É sentimentalismo político. A justiça não se mede pelo estado físico do réu, mas pela adequação entre fatos, normas e sanções.
Girard, ao interpretar a cena da mulher adúltera, não aboliu a lei; ele interrompeu o linchamento. O gesto de Jesus não dissolve a responsabilidade individual, mas a desloca: cada acusador é confrontado com seu próprio pecado. O que se vê na narrativa da perseguição é o oposto: toda responsabilidade é projetada para fora, para um inimigo absoluto — o juiz, o tribunal, o sistema.
Assim, a figura de Alexandre de Moraes como “demônio” cumpre exatamente a função que Girard atribui ao bode expiatório clássico. Ele concentra o ódio, organiza o ressentimento e fornece um alvo claro para a frustração coletiva. O discurso que se apresenta como denúncia do sacrifício termina, ironicamente, por produzir outro.
III — DEMOCRACIA, RESPONSABILIDADE E O FIM DA ILUSÃO SACRIFICIAL
A acusação de que a democracia brasileira teria abandonado o cristianismo para regressar ao paganismo revela mais sobre a nostalgia moral de quem a formula do que sobre a realidade institucional do país. Em Girard, o cristianismo não é a suspensão de toda justiça, mas a exposição da mentira fundadora da violência coletiva. Isso não implica a abolição do juízo, mas sua submissão à verdade dos fatos e à responsabilidade individual. Impedir o linchamento não é o mesmo que impedir o julgamento.
A democracia moderna não busca unanimidade mística nem catarse sacrificial. Como argumenta Jürgen Habermas, sua legitimidade decorre de procedimentos racionais de deliberação e responsabilização, não de consenso emocional. Em momentos de crise, como lembra Bruce Ackerman, tribunais podem exercer jurisdição excepcional para preservar o Estado de Direito. Isso não os torna sacerdotes arcaicos; torna-os atores institucionais em contextos extraordinários.
O conflito político brasileiro persiste não porque o sacrifício não se completou, mas porque não há — nem deve haver — consenso moral absoluto. Bolsonaro permanece como ator simbólico central porque sua liderança não foi dissolvida, e porque sua base continua mobilizada por uma narrativa de perseguição que transforma cada revés em confirmação. Não há pacificação ritual porque a democracia não se pacifica pela eliminação de indivíduos, mas pela convivência regulada entre divergentes.
Girard nos ensinou a desconfiar das histórias em que todos os males se concentram numa única figura. A narrativa da perseguição apenas desloca essa concentração: troca o “demônio Bolsonaro” pelo “demônio Alexandre de Moraes” e chama isso de revelação. No fundo, permanece o mesmo conforto mitológico: a crença de que, se eliminarmos o culpado certo, a cidade será purificada.
A verdadeira lição girardiana para o Brasil talvez seja mais incômoda. Não há bode expiatório que nos absolva da responsabilidade coletiva por nossas escolhas políticas, por nossas instituições imperfeitas e por nossos conflitos reais. Enquanto insistirmos em transformar adversários em símbolos sagrados — seja para crucificá-los, seja para canonizá-los — continuaremos presos ao mesmo ciclo que fingimos denunciar. O desafio democrático não é escolher quem será o próximo sacrificado, mas abandonar, de uma vez por todas, a lógica sacrificial.
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