Feminicídio: Silêncio Masculino como Cúmplice da Barbárie

Feminicídio: silêncio masculino como cúmplice da barbárie

O Brasil encerra 2025 sob o peso de uma estatística que deveria envergonhar qualquer sociedade que se pretenda civilizada: quatro mulheres assassinadas por dia, vítimas de feminicídio. São números que não apenas revelam a persistência da violência de gênero, mas também escancaram a cumplicidade silenciosa de uma parcela significativa dos homens. Quando o silêncio se instala diante da barbárie, ele se transforma em consentimento. E consentir, nesse contexto, é ser cúmplice.

A morte de Tainara Souza Santos, aos 31 anos, simboliza um ano marcado por tragédias repetidas. Até novembro, 1.331 mulheres foram exterminadas simplesmente por serem mulheres, superando os registros de 2023 e 2024. Esses números não são abstrações: são vidas interrompidas, famílias devastadas, comunidades feridas. Cada caso é um retrato da falência de uma sociedade que ainda tolera o machismo como norma e a misoginia como prática.

O problema não se resume aos agressores diretos. A violência contra a mulher é sustentada por uma rede de omissões. O homem que se considera pacato, que acredita que “não é problema seu”, contribui para perpetuar o ciclo. A indiferença é uma forma de violência. A hesitação diante da injustiça é uma escolha que reforça a impunidade. A imobilidade, quando se trata de enfrentar o feminicídio, é parte do crime. É nesse ponto que se revela a cumplicidade coletiva: não há inocência possível quando a sociedade inteira convive com a brutalidade e se cala.

Os episódios recentes mostram como o feminicídio se tornou rotina. Uma jovem estuprada e estrangulada a caminho da natação em Santa Catarina. Uma mulher arrancada do banho e executada a tiros na Bahia. Uma professora e uma psicóloga assassinadas dentro de uma escola no Rio de Janeiro. Uma trabalhadora morta em plena pastelaria em São Paulo. São histórias que se repetem com diferentes nomes e cenários, mas que carregam a mesma lógica: a desvalorização da vida feminina.

O combate ao feminicídio não pode ser visto como uma pauta exclusiva do feminismo. É urgente que os homens assumam essa luta como sua. O déficit de engajamento masculino é evidente: muitos se ausentam da formação doméstica dos meninos, deixando que valores machistas se consolidem sem contestação. Outros se mostram complacentes diante da deformação letal que transforma adultos em agressores. Essa ausência é tão criminosa quanto o ato em si, porque permite que a cultura da violência se reproduza.

É preciso romper com a ideia de que, diante de sua omissão em variadas formas, indiferentes a esse quadro assustador, os homens que assim se comportam são inocentes. Muitas vezes são, de alguma forma, culpados ou cúmplices. Culpados, quando praticam a violência. Cúmplices, quando se calam, quando não educam, quando não denunciam, quando não se posicionam. O silêncio masculino é a argamassa que sustenta o edifício da misoginia. A omissão é a sombra que protege o agressor.

O desafio, portanto, é transformar a indignação em ação. Homens precisam se revoltar contra a masculinidade assassina, não apenas em discursos, mas em práticas cotidianas. É necessário que usem sua voz, sua influência e sua presença para desmantelar o machismo que mata. Isso significa educar filhos e filhas em valores de igualdade, intervir em situações de violência, apoiar políticas públicas de proteção às mulheres e, sobretudo, reconhecer que o problema é coletivo.

O feminicídio não é uma tragédia isolada; é um sintoma de uma cultura que ainda naturaliza a dominação masculina. Combater essa cultura exige coragem, persistência e compromisso. Não basta lamentar as mortes. É preciso agir para que elas não se repitam. O futuro do Brasil depende da capacidade de seus homens de se tornarem aliados reais das mulheres, não apenas espectadores passivos de sua dor.

Encerrar 2025 com mais de mil mulheres assassinadas é um chamado à responsabilidade. Cada vida perdida é um lembrete de que a luta contra o feminicídio não pode esperar. O silêncio já custou caro demais. É hora de transformar a vergonha em ação, a omissão em engajamento, a cumplicidade em resistência. Só assim será possível imaginar um país em que ser mulher não signifique viver sob ameaça constante.  


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