O teatro da captura
Mauro Vasni Paroski
O Teatro da Captura: Como a Elite Redesenha o Estado à
Sua Imagem
Há quem ainda insista em tratar a desigualdade como um
fenômeno natural, quase inevitável, como se fosse produto do acaso ou da
incompetência técnica. Mas a verdade é mais incômoda: a desigualdade é uma
escolha. Uma escolha política, institucional e cultural. E essa escolha tem
nome — chama-se pacto da elite.
Esse pacto não se limita à acumulação de riqueza. Ele se
manifesta na captura das instituições. O Congresso Nacional, o Judiciário e os
grandes meios de comunicação não são apenas espaços de representação:
tornaram-se trincheiras da manutenção de privilégios. Grupos empresariais
influenciam decisões, moldam narrativas e bloqueiam sistematicamente qualquer
tentativa de redistribuição. Propostas de tributação sobre grandes fortunas,
lucros e dividendos são barradas antes mesmo de serem discutidas com seriedade.
A reforma agrária é tratada como tabu. Democratizar a economia? Um crime contra
o mercado.
A política fiscal é desenhada sob medida para os grandes
conglomerados. Subsídios, renúncias fiscais e desonerações são distribuídos com
generosidade aos que menos precisam. Enquanto isso, o consumo popular é
penalizado por impostos indiretos que corroem a renda dos mais pobres. O
Estado, que deveria ser instrumento de justiça, torna-se operador da
desigualdade.
Mas o pacto da elite não se sustenta apenas pela força
econômica. Ele se alimenta da hegemonia cultural. A mídia, concentrada em
poucos grupos, constrói uma narrativa que transforma privilégios em mérito e
exclusão em responsabilidade individual. A meritocracia é vendida como valor
absoluto, ignorando as desigualdades de origem. Movimentos sociais são
criminalizados, tratados como ameaça à ordem. Políticas públicas são reduzidas
a “gastos”, como se investir em saúde, educação ou moradia fosse um luxo e não um
dever.
A opinião pública é moldada para aceitar a injustiça como
paisagem. A exclusão é naturalizada, estetizada, até desejada. O pobre é
culpabilizado por sua pobreza. O rico é celebrado por sua esperteza. E assim, o
pacto se perpetua — não apenas nas leis, mas nas consciências.
Há ainda os pilares invisíveis, mas estruturantes, desse
pacto: o racismo e o patriarcado. A população negra e as mulheres —
especialmente negras — enfrentam barreiras sistemáticas ao acesso à educação,
ao mercado de trabalho e à renda. A desigualdade racial e de gênero não é
periférica: ela é o centro nervoso da reprodução da pobreza. Sem enfrentamento
direto dessas estruturas, qualquer projeto de justiça social será apenas
cosmético.
Romper com esse pacto exige mais do que boas intenções.
Exige coragem institucional. Exige reformas profundas no sistema tributário, na
lógica de funcionamento do Estado e na cultura política. Democratizar a
economia não é utopia: é necessidade. O cooperativismo, a economia solidária e
a valorização do trabalho são caminhos possíveis — e urgentes.
A reforma tributária progressiva, com tributação sobre renda
e patrimônio, não é apenas uma medida técnica. É um gesto ético. É a afirmação
de que o Estado não pode continuar servindo aos interesses de poucos enquanto
milhões vivem à margem. O fortalecimento do Estado social, com investimentos
robustos em saúde, educação e moradia, é a única forma de reconstruir o pacto
republicano.
Porque no fim, a pergunta que se impõe não é “como combater
a desigualdade?”, mas “por que continuamos a aceitá-la?”. E essa pergunta, por
si só, já é um ato de ruptura.
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